Guga subiu as escadas, Juliana desceu.

Quase se esbarraram, mas o garoto, ágil, conseguiu se comprimir contra a parede antes que a mulher o atropelasse. As últimas semanas estavam sendo assim, ele se sentia tão culpado que fazia o possível para não ser visto e ela cooperava, ignorando-o. As vezes ela o olhava, chorosa, mas logo desviava o olhar e saia pisando firme.

Isso ia passar.

Não que ele pudesse entender tudo isso.  Era jovem demais. Talvez um aperto no coração, talvez um sentimento triste na alma, talvez só uma pequena pontada de dor sempre que pensava no quanto ele a fez chorar.

Os passos dela a levaram até a porta da cozinha, os dele para seu quarto.

Como castigo ela tirou do cômodo todos os brinquedos e enfeites. Ficou-lhe a cama e um lençol. Mesmo esse sem cores nem desenhos. Era um quarto triste e ele, por um momento, sonhou com a volta dos bonecos, carros, aviões e seu rádio. Esse pensamento, entretanto, foi tão fugaz que, antes que terminasse, Guga já saltava sobre a cama e olhava a janela. Umas gotas de chuva fina caíam sobre ela desenhando rabiscos que apontavam para o mundo lá embaixo.

A Janela se abria para um vasto quintal de uma casa comprada há anos pelo pai. Tinham um gramado amplo que pintava de verde todo o chão e, onde falhava, surgiam umas flores violetas que cresciam em arbustos espessos e largos. O primeiro a surgir, agora já se abria por vários metros. O Pai prometeu capiná-los. Guga ia ajudá-lo tão logo ele voltasse. Fazia muito tempo que Guga não o via.

A mãe alcançou a porta e mesmo com a chuva, avançou através dela. Braços cruzados e um olhar que procurava algo para ver. Contemplava o mesmo arbusto que Guga, então viu as nuvens escurecidas de chuva e logo seguiu um bem-te-vi em seu percurso célere até pousar na mangueira.

A árvore, ali há mais tempo que a mulher, aceitou-a em seu mundo e saudava sua presença ao ritmo do vento erguendo seus galhos e ameaçando a casa, que mesmo com seus dois andares não parecia fazer frente ao colosso. Mas com a mesma força que avançava contra as paredes, a mangueira retornava nessa maré infinita.

Um dos galhos tinha o antigo balanço pendurado.

Guga encostou a testa no vidro e com seus dedos mediu o tamanho da madeira que servia de base ao balanço. Engraçado como ele cabia sentado em uma coisa que parecia menor que suas unhas. Ele sorriu. Mas não um sorriso alegre.

Juliana sentou-se em uma cadeira de vime que, muito rachada, rangeu. O balanço moveu-se devagar e depois de resistir ao vento o deixava passar, retornando. Pendulando como se houvesse alguém sobre ele. Ia e voltava e, sem que notasse, Juliana balançava as pernas no mesmo ritmo, aceitando o convite uma dança solitária.

O menino, já se absorvera por outra atividade e desenhava na poeira da janela quando o viu, caminhando pela relva, bem ao longe. Seu coração reagiu antes de sua cabeça e, mesmo arriscando a irritação da mãe ele lançou-se pelas escadas. Seu pai estava voltando.

Quando ele atravessou a porta, Juliana já não estava lá. Tinha ido a cozinha ferver água para o café, mas Guga não conseguia parar para avisá-la. Ele gritou ter visto seu pai enquanto se lançava pelo quintal, livre.

Tudo ficaria bem agora. Castigos acabariam e o ódio de sua mãe iria embora com a chuva.

O pai estava lá, Guga o abraçou. O homem o pegou nos braços e o menino, com as pernas sobre o ombro do pai abriu os braços sentindo a chuva e uma felicidade que jamais experimentou e que não conseguia descrever. Ele não tinha palavras suficientes pra isso.

O Pai lhe perguntou sobre tudo. Queria saber sobre os dias e as noites. Guga lhe contou sobre a escola, sobre suas notas. Guga falou sobre brincadeiras e sobre uma corrida que vencera na quermesse.

O pai lhe ouvia em silêncio e ambos dividiam um sorriso.

Guga lhe contou sobre o castigo e da história que começou há mais de mês. Sua mãe mandava que ficasse em casa e ele desobedecia. Fugia ao quintal, corria pela grama e deixava-se morgar no balanço por horas, pensando em que desenhos as nuvens teriam ou quantas formigas haveriam sob tal pedra. Ela não parecia se importar. Não de verdade. E isso o deixava confuso, pois há três semanas ela decidiu castigá-lo.

Foi logo depois de se recuperar de uma tosse terrível que o deixou de cama, com a mãe aos seus pés rezando terços e chorando orações. Ele reagiu e levantou-se da cama. Estava bem, mas havia uma festa de adultos lá embaixo. Todos falando baixo e todos consolando a mãe por algo que Guga tinha feito. Ele ouvia seu nome, mas não compreendia os sussurros. Era dia e ele correu pro quintal, sujou-se pela grama, viveu seu balanço como se a tarde nunca fosse acabar, mas quando finalmente voltou para casa sua mãe estava sentada, esperando-o e chorava.

Lá embaixo, sob a mangueira o vento sacudia o balanço e ela imaginou que seu filho vencera a tubercolose e se balançava.

Para frente e para trás.

Para a frente e para trás.

E por um instante ouviu aquela gargalhada que ele dava quando seu pai ainda era vivo.

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