Há um personagem em Bojack Horseman (uma série fenomenal da Netflix) chamado Vincent Adultman que é (são) na verdade três meninos montados um sobre o outro vestindo um sobretudo tentando se passar por um adulto. Ironicamente, apenas o personagem principal parece perceber isso, ao passo que outros personagens elogiam sua sabedoria e maturidade. A grande piada se baseia no absurdo, quando o espectador (e Bojack) percebem claramente a situação enquanto os personagens “compram” suas falas e respostas sem sentido. Coisas como “olá, outros adultos” passam despercebidas por todos e os meninos conseguem se passar por um bem sucedido homem de negócios.

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Vincent é apenas a base para entender como eu me senti lendo “The Boys” de Garth Ennis.

Faz tempo que o amigo Marcio Fiorito tem batido na mesma tecla sobre o autor e, ainda, que eu concordasse com a idéia de que Preacher não sustenta uma nova leitura nos dias de hoje, na minha memória Garth Ennis tinha outras histórias mais maduras, mais cínicas e com aquela dose de incorreção e transgressão que me faziam curtir muito a sua obra.
Então encontrei The Boys numa promoção da Fnac. Nunca tinha lido (ou melhor nunca tinha insistido na história) e minha impressão ao finalmente poder lê-la foi como perceber que o Garth Ennis é um adolescente vestido de adulto e poucas pessoas pudessem ver. O roteiro parece girar e, na verdade, forçar as cenas que ele imaginou que seriam mais escandalosas e cabeludas possíveis. Eu entendo até que esse pode ser o objetivo – uma crítica crua e na contra-mão da visão dos heróis pela sociedade, mas ainda assim me pareceu apenas uma sequência de sketchs doentios para justificar uma revista “adulta”, afinal, todos sabemos que ser adulto nos quadrinhos é mostrar violência explícita e um pouco de sacanagem também.

E, não. Não estou sendo puritano e até acho que o escapismo é válido. boys4-e1305160526695De verdade. O que vale é que ele está curtindo escrever e que o pesoal está curtindo o que lê e eu sei que muita gente curte The Boys, Preacher, Crossed e (eu tenho medo de reler) o famoso run do Ennis no Justiceiro. E tudo bem, certo? Só não rolou pra mim e retroativamente eu estou começando a desgostar do Ennis (infelizmente). Cada dia que passa estou achando que ele se parece mais com um garoto querendo fazer coisas de adulto, e chego a ver os diálogos dele com seu editor (ou, no caso mais autoral, sua própria auto-crítica).

 

– O que vai rolar nessa sua história, Ennis?

– Coisas de adulto, cara, putaria, sangue, tripas. Coisas fodonas de adulto. Sério. Fodonas.

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