Nesses dias a luz queimava mesmo sob as pálpebras, então ela se protegia nos intervalos regulares em que os galhos próximos, movidos pelo vento, deixavam transpassar o sol em sua direção. Já treinado pelos anos de cárcere, seu pescoço erguia-se para que os olhos desviassem do facho reluzente e depois de alguns minutos descansava, deixando sua cabeça novamente apoiada em seus braços. Se alguém de fora a visse, e pudesse observá-la neste movimento, único e repetido, poderia julgá-la um autômato ou alguma coisa que assim valesse.

O som também incomodava seus ouvidos, principalmente as crianças com suas perguntas infinitas e vozes estridentes, mas não havia gesto ou movimento ou posição que amenizasse o inconforto, então ela simplesmente tentava ignorar os passos arrastados dos transeuntes e as vozes que os acompanhavam, sempre ligeiramente espantadas ou fingindo espanto de vê-la ali, aprisionada.

Por alguns instantes ela esboçou um olhar tentando identificar o movimento, mas não havia novidade. Nunca havia. Ela deixou-se deitar sobre os braços e contemplou o chão em busca de algum interesse novo, mas desse esforço nada veio e o esforço para aplacar a sede parecia demais. Longe demais. Cansada demais. Febril demais.

Não que ela se julgasse inocente. Conseguia distinguir moralmente seus crimes. O sangue que derramou e as vidas que tirou. Ela não conseguia, entretanto, lembrar-se de quando foi julgada e condenada. Quando decidiram que ela seria exposta entre grades e aprisionada para o deleite dos visitantes. Mas ela sabia que tinha o que merecia e, assim, passava seus dias, fugindo da luz, suportando os sons e esperando o ferimento, já incurável, levá-la.

Havia algo, porém, que era agradável para ela. Os cheiros. De comida, de pessoas, de animais. Ela gostava de sentí-los e alguns, em especial, podiam até animá-la. Como a carne, como o outono, como Alexandre.

Ela era seu carcereiro, mas também era o melhor momento do seu dia. Ela o amava.

Quando ele entrou naquela noite já com o motivo em mãos e um olhar decidido, ela se animou um pouco e tentou erguer-se, mas o dor não permitiu. Ainda assim se esforçou para olhar em sua direção. Febril, esboçou um sorriso e Alexandre correspondeu. Ele conseguia ler seus olhos. Ela imaginava que sim. Ela queria ter a certeza que sim.

“Vem aqui. Você pode vir aqui?” Ele falou e ela tentou. Ergueu-se dolorosa e debilmente e avançou sobre as pernas e braços, praticamente arrastando-se em sua direção. Ele também avançou e encontram-se no meio do caminho, onde Alexandre sentou-se e ela pôs a cabeça em seu colo. Ele acariciou seus cabelos e orelhas, passou a mão em seu pescoço, em seus braços. Ela poderia dormir, ela gostaria de dormir, mas a dor não permitia. “Tudo vai acabar bem, garota, eu prometo”. E ela acreditava.

Alexandre era diferente dos transeuntes, ele a via, ele a entendia, ele também a amava, ela sabia. Ele não fazia seus barulhos como os outros. Era silencioso e sua voz era grave, suave. Ele trazia seu jantar e, ainda que fosse prisioneira, havia sempre algo especial para ela naquele prato. Então, ela acreditava.

A porta se abriu de novo pelo que ela ouviu e os passos do médico se aproximaram. Com ele o coração de Alexandre, Ela, próxima do seu peito pôde ouvir, acelerou. Ele tinha medo. Ela não. O Médico caminhou lentamente até as grades de sua cela e cerrou uma cortina.

Os olhos de Alexandre estavam marejados, e ela nem precisou vê-los pois sentiu o cheiro salgado das lágrimas que escorreiam pelo rosto do homem. Sua voz, embargada, dizia as frases de sempre que misturavam “Olha como você está bonita” e “Boa menina”, mas ela sabia que não era uma boa menina. Sabia que ele lera seus crimes em seus olhos e que, aprisionada, não teria como alcançar o coração de alguém tão bom quanto Alexandre, mas ele a amava mesmo assim. Ele era especial e, por isso, ela acreditava.

As mãos do médico e dele chegaram a ela juntas. As dele com um cheiro especial de algum agrado delicioso, as do médico com uma picada aguda e profunda. Ela sorriu e olhou em seus olhos tentando dizer obrigado, mas não conseguiu. Provou o agrado como quem prova a carne mas o único sangue que sentia em sua boca era o seu.

Ouvindo a voz de Alexandre que a consolava ela adormeceu finalmente, livre, ouvindo apenas vozes ao longe por trás do pano, ou seria um véu? Sentindo cheiro de Alexandre ela foi sonhar, deixando para trás o corpo nu de uma mulher morta de cuja boca escorria sangue.

Alexandre ergueu-se sobressaltado e a cabeça da mulher caiu de seu colo com um baque surdo no chão. Ele afastou-se, evitando o sangue com seus pés e encontrou as grades da jaula atrás de si. Precisando respirar, puxou as cortinas e então pais e crianças viram o corpo e reagiram com gritos e fuga. O Médico tropeçou quando andou de costas e caiu com a cabeça contra a porta, quando conseguiu apoiar-se no chão tentou sair dali, mas levou muito tempo tentando fazer funcionar a maçaneta. Alexandre precisava reunir coragem para atravessar por sobre o corpo e ele não acreditava que teria o suficiente algum dia.

Quando a polícia finalmente chegou, os seguranças já o tinham tirado da cela e ele estava em choque. Respondendo a um confuso inquérito criminal junto ao Médico veterinário, Alexandre não se recuperou. Biólogo por formação, nunca mais teve coragem de chegar perto de outro animal.

Ela não. Ela estava feliz. Sonhava com a grama verde e com os cheiros do mato, das flores e do outono.

lobisgomb

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