As cores somem quando eu abro os olhos. Tudo assume um tom de laranja. Quente. Não há verde. Não há azul. Não há vermelho. Não existem aqueles meios-tons comuns às matas. O verde que se sobrepõe ao outro verde e o amarelo de uma flor que quase não se nota sobre a folhagem do outono. Não existe mais o verde-musgo e o verde-lima e o verde-mar. Nem o azul-céu tão claro que mal divisamos o início das nuvens. Nem mesmo aquele azul real que invade às tardes e recorta o branco como se fosse desenhado. Há apenas o laranja, como se a mata tivesse em chamas e os céus fossem um eterno horizonte de pôr-do-sol.

Mas ainda sei o que é verde. Sei o que é azul e sei o que é vermelho. A grama sob meus pés é verde, o céu é azul e o sangue é vermelho. E eu quero as cores. Enquanto tudo é laranja, eu desejo o verde e o azul e o amarelo e, em alguns dias, o vermelho acima de todas elas.

Assusto os pássaros quando meus passos espalham fumaça e calor. Não as vejo, mas sei que as capivaras evitam a minha presença, fugindo para as margens dos rios, onde é fresco. As matas ficam. Não sabem fugir. As árvores temem, mas me reverenciam e evitam bloquear-me, usando o vento para mover suas folhas e galhos para fora do meu caminho.

Quero saber o motivo de meus olhos não estarem mais mortos. Quero saber o que evita o meu sono e os sonhos coloridos onde as criaturas vem comer e beber comigo. Meus olhos me mostram. Apenas duas formas com as cores que mais desejo. Verde e azul recortados no mar laranja. Mal posso esperar para tê-las comigo.

Imagino que corro e logo um urro sob mim mostra que tenho montaria. Guinchamos juntos enquanto desviamos dos troncos das árvores e encurtamos caminhos nas trilhas desconhecidas por qualquer um que não converse com as rochas e com as plantas. Logo estamos bem perto e as formas se parecem comigo. Altas e diferentes dos animais com quem convivo.

São meus irmãos?

Assim que me vêem, elas gritam. Gritos que parecem estampidos. Apontam braços compridos na minha direção e a boca que tem no fim dos seus braços berra um estouro e árvores e chão e folhas explodem em volta de mim. – Mesmo com uma força capaz de derrubar um urso, o grito me etinge e eu não me movo. Toco o ombro ferido e uma planta morre dando sua vida para recuperar a minha carne.

Minha montaria está agitada, guincha e urra com medo. Mas ela não quer fugir. Ela ataca quando tem medo. Criaturinha estúpida. Leal e forte, mas estúpida. Eu a deixo ir e ela escapa de minhas pernas enquanto piso firme no chão. Agora o verde e o azul apontam os braços para ela. Estourando o chão onde ela passa. Eu vejo que eles precisam de tempo entre cada grito, acariciam os braços, preparam e gritam de novo.

Eu espero. Pou. E espero, pou, pou e corro. Um dos gritos tombou minha montaria que grita pela ultima vez enquanto eu recebo a força da sua morte. Salto muito alto e suas presas surgem como arma em minhas mãos. O Espirito do caitêtu em forma de lança com dentes nas duas pontas.

A carne verde é mole quando a atinjo e eu imagino que a azul também seja. A lança rasga o peito dele como meus dentes rasgam a fruta. Eu me delicio com o vermelho jorrando de seu corpo. Ele espirra em meu rosto. É lindo. Sacia um pouco da minha sede por um mundo colorido. Perco muito tempo contemplando as cores e o braço da criatura azul, sem que eu perceba, grita, explodindo minha cabeça. Minha nuca se desfaz como madeira atingida pela pedra de esculpir. Carvão cai de minha cabeça para o chão e o fogo dos meus olhos se esfria um pouco embaçando a minha visão.

Então, o esírito de quem me chamou aparece. Jaguaretê. Morto pelos braços das cores. “usa minha força e meu espírito contigo”. Ela diz e eu agradeço.

Azul não é páreo para minha velocidade e para meu poder. Eu o derrubo antes que ele possa acariciar seus braços e ele chora. É gato miando e cão ganindo. Um choro que me faz rir. É engraçado.  Fico olhando, curioso. Tem medo de morrer. Criaturinha estúpida. Sua força vira minha força. Seu espírito vira meu espírito. Não chore. Você vive em mim.

Ele segura meus pés do avesso sobre seu peito e eu me inclino sobre ele. Seu braço se move contra mim, mas eu o arranco de seu corpo e quebro com os dentes. Quando me aproximo do seu rosto azul vejo o fogo dos meus cabelos brilhar em seus olhos.

Quer morrer não. Mas Onça me chamou e eu nunca volto sem as cores. Meu mundo laranja precisa delas.  Sem o vermelho, meu fogo se apaga e eu morro até que o sangue e a seiva de outra criatura me acorde com a força do seu espírito e o ódio da sua vingança.

Eu mordo seu pescoço macio e cuspo a carne de gosto ruim. Gargalho e aplaudo o vermelho jorrando. É lindo. Eu danço ao redor dele, com meus pés de frente para as costas. Feliz com tanta cor além do fogo.

Pouco antes de morrer, ele engasga e sussurra “curupira”. como se falasse comigo. Eu fico imaginando o que ele dizer com isso e como sua língua pra entender suas palavras.

Comments

comments