20/12/2057 

Não tenho esperanças de que alguém leia estas palavras, que escrevo enquanto aguardo que me alcancem. Se você estiver lendo isso, muito provavelmente não é deste planeta, ou é… e, neste caso, agradeço a Deus que tenha sido poupado. Mas aposto, com lágrimas, que esta carta é um lamento que ficará silencioso para sempre.

Eles estão à porta. Avançam contra ela em ondas e eu ouço suas investidas em intervalos regulares. Parecem saber que esse esforço conjunto terá mais efeito e resultado do que aglomerar-se esmurrando a porta. Não que faça muita diferença contra a porta de aço. Não que qualquer coisa faça mais a menor diferença.

Você deve conhecer “a cura”. Pois fui eu quem imaginou a possibilidade dela existir. Fui eu que, como pesquisador resposnável, ajudei uma equipe a descobri-la. O Ser humano livre do câncer para sempre. Não só os recém descobertos, mas aqueles em estado terminal.  Os voluntários dos testes iniciais respondiam bem, o câncer sumiu. Não regrediu. Desapareceu.

A “cura”  era, em termos leigos, uma espécie de outra doença. Justiça Poética – Um câncer para o câncer.  Nano-células que se replicavam dentro do câncer, tornando-o não apenas inofensivo, mas uma célula saudável e perfeitamente “limpa”. Curada.

O tempo provou que funcionava e o mundo se curvou a ela. À exceção dos ativistas religiosos. Diziam, uma vez mais, que brincávamos de deuses. Meu argumento, à época foi que “se não foi Deus que me deu a ideia para extirpar esse mal da humanidade, seria melhor que estivéssemos do lado de quem deu. Ainda que fosse o diabo”. A frase se tornou famosa. Passou a ser um jargão comum quando qualquer um realizava o menor feito que fosse. “Se não foi Deus…”. Um comercial de TV exibia uma pizza com 3 camadas de queijo enquanto o narrador proclamava: “Novo sabor com camadas intercaladas de queijo. Se não foi Deus quem deu essa ideia, o diabo aprendeu a cozinhar.”

A cura se tornou vacina obrigatória. Crianças nasciam livres do câncer, mas, como sempre guardamos informações a sete chaves, algumas ongs nos procuravam para contestar nossos testes. É bem verdade que o governo fez vista grossa em algumas partes do processo de testes em animais, mas não fizemos realmente nada que pudesse nos comprometer. Eles queriam informações. Fizeram protestos. Vozes que ecoavam no vazio da atenção que receberam. A cura funcionava.

Mas você já imagina o que aconteceu com o mundo. Ainda que estivéssemos livres de doenças e da “velhice”, acidentes aconteciam e pessoas morriam. Não curamos a morte. Não de propósito.

As pessoas morriam, mas não iam embora. Seu corpo não desligava. A morte tornou-se um processo passageiro. A consciência sumia com a morte real, mas o corpo físico se recuperava e continuava vivo. Sem braços, sem pernas… mesmo sem metade do corpo. Começamos a ter cabeças animadas, de olhos abertos, mas sem qualquer vida. Uma máquina funcional, mas sem propósito.

Isso se tornou um problema. Famílias não queriam enterrar seus entes quando pareciam estar vivos. Alguns tinham receio de cremá-los. Alguns os alimentavam e hidratavam, acreditando estar cuidando de alguém ainda vivo.

 

Então o primeiro “especial” surgiu. Quando abriu seus olhos desmortos, estavam vermelhos e brilhantes. Um agouro terrível do que viria. Sua não-vida era ainda mais estranha que o normal. Apesar de mortos, seus olhos olhavam e, mesmo sem precisar, seus braços procuravam ao redor e levavam a boca qualquer comida que alcançasse. Outros surgiram, por todo o planeta.

Nossa decisão foi de cremá-los a todos.

Tarde demais.

Na presença destes especiais os desmortos enlouqueciam. Moviam-se, agitavam-se e abriam suas bocarras contra nós.  Com o tempo outros desmortos comuns, como os chamávamos, tornaram-se especiais. Seus olhos emitiam de início um brilho fraco, depois tornavam-se faróis vermelhos à noite. Eles caminhavam pela madrugada, vagando, agrupando outros desmortos.

De hora pra outra tudo ruiu. Mesmo com os esforços para destruí-los, não fomos capazes de controlá-los. Eles explodiram em raiva, ou ira, ou um sádico prazer inexplicável e nos atacaram. Cada vitória deles aumentava sua força com novos desmortos. Balas, tiros e desmembramentos nos matavam, mas não os afetavam.

Em poucos dias o mundo se destruiu. Não sei quantos de nós existem, mas, certamente não por muito tempo. Eles sentem nosso cheiro, enxergam melhor que nós, tem a força de 3 ou 4 de nós.

Estarei morto em poucos dias, sem água ou comida. Meu corpo já delira, febril.

O Telefone tocou ainda há pouco. Como pode? Ninguém sabe onde estou.

Quando atendi, uma voz de homem. Gentil e cordial, me disse:

— adivinha de quem foi a idéia, afinal.

 

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