As gotas de chuva estalavam no chão de concreto. Samanta corria o quanto podia, mas cada passo, ainda que exigindo dela o máximo, não parecia ser o suficiente. Conforme avançava, surgiam grãos de areia pelo chão e, se eles eram tão raros no começo que apenas faziam seus pés deslizarem em um ou outro avanço, com o tempo tornaram-se mais comuns e o chão ficou tão fofo quanto correr na praia, engolindo a sola de suas pegadas e segurando seus pés. Atrás da menina, uma sombra rasgava o chão como se fosse uma gota escorrendo pelo vidro de uma janela. Lépida, rasteira e com a forma de um cometa feito exclusivamente de vapor.

A chuva continuava forte, mas agora as gotas sumiam pela areia e os passos de Samanta, já pesados e cansativos, diminuíram. Ela dobrou-se pra frente, seus pés esticados contra o chão, parecendo que cairia, mas quando se ergueu de novo ganhou impulso no ar. Seus dedos raspavam o chão e ela flutuava em velocidade para frente. A ponta de suas unhas desenhando sulcos naquela espécie de areia molhada. Voava como se pendurada por cordas num teatro. Suas roupas, antes coladas, tornaram-se véus esvoaçantes.

_Como em Peter Pan. – Ela sussurrou para si mesma.

Ela sentia frio e o sol estava violeta, entrevisto, ela sabia, por uma película de celofane teatral. Alguns metros à sua frente o chão dava lugar ao espaço vazio e, abaixo dele, numa queda de 30 andares, as ruas de uma cidade pulsante. Samanta fechou os olhos e saltou. A Sombra que a perseguia esticou-se como uma mola que se liberta. Dentes surgiram da massa disforme e logo uma boca se avolumou ao redor deles. A língua, como de um sapo faminto, projetou-se ainda mais à frente, mas não era língua. Era um braço de homem e, atrás dele, por dentro da boca, vinha um corpo sem pelos nem olhos, sorrindo dentes pontiagudos e malditos que se encaixavam com a precisão de engrenagens. Os dedos tentaram tocar os tornozelos de Samanta com as unhas grosseiras e grandes de defunto, mas ela já caía para a estrada lá embaixo.

_ Menina! – A criatura grunhiu sem abrir os dentes perfeitos, com as narinas pulsando como se fossem guelras filtrando água.

Samanta caía solta, seus véus sacudindo atrás de si, se rasgando com a velocidade do vento. As ruas lá embaixo a esperavam. Ela não era nova nisso, mas tinha pouco tempo para reagir. Tentou se concentrar. Fechou os olhos, lembrou-se de sua infância.

Lembrar-se era o mais importante.

Tinha 4 anos. Sim. Boa lembrança. Bóias nos braços, aula de natação para crianças. Maiô azul e touca. Exigência da escola. Olhando para ela através da grade, sua mãe, seu pai… Não, seu pai já havia morrido. Tio Benito. Que se transformava lentamente numa massa negra e disforme. A Sombra. Não. Não isso. Esquece isso. Outra memória…

Ela abriu os olhos. Não havia tempo. Ela teria que se contentar com essa lembrança, uma memória infeliz que aproximou a sombra de si.

A janela ao seu lado explodiu em cacos enquanto a criatura sombria se lançou por ela, tentando interceptar Samanta antes que tocasse o chão, abrindo a bocarra de dentes largos e emergindo dentro dela, o homem sem olhos, de dentes finos e perfeitamente pontiagudos. Sorrindo. Braços esticados contra Samanta.

A menina esquivou-se e, por poucos milímetros, escapou do toque sinistro. Bastaria a ponta das unhas para infectar Samanta para sempre. A sombra adejou, curvou-se e, seguindo a moça, veio também em direção ao chão.

Samanta espatifou-se no chão, mas ele se abriu, líquido, jorrando para os lados e para o alto como se fosse a água de uma piscina.

_ Meninaaaaaaaa! – A sombra gritava quando também entrou na água. Mas Samanta já nadava em direção à calçada.

_ Shiiiiuuuu! – Fez a sombra, levando um dedo a boca e pedindo silêncio. Lembrou a menina da hora de dormir e como Tio Benito lhe dizia “Shiu… Pense só coisas boas e sonhe bons sonhos”.

A água tornou-se panos. Samanta não podia nadar por eles e começou a cair, enrolando-se, sem conseguir de desvencilhar.

A lembrança se apossou dela. Tio Benito, a sombra, recortada sobre a luz, sobre ela. Os panos ao seu redor, se entrelaçando como lençóis.

_NÃO! – Ela gritou com tanta força que seus olhos embaçaram. Com medo de acordar, Samanta se acalmou. Ninguém tinha o controle dela ali. Ela era livre. Exceto pelas lembranças. As lembranças podiam libertá-la ou aprisioná-la.

A sombra crescia sobre ela.

_ Você não é nada aqui, Tio!

Ele esticou os dedos para ela e não era sombra agora, era um homem de pouco mais de trinta, sorriso no rosto e olhar bondoso. Mas ali, esse olhar tomava contornos secretos. Uma bondade que denotava malícia. Uma máscara que escondia, sob sorrisos e olhos meigos, uma sombra terrível:

_ Sua mãe vai saber o que você fez.

Por um instante a lembrança saltou pela mente e olhos de Samanta e ela se enrolou nos lençóis, aprisionando-se. Tentava concentrar-se em algo novo. O Rosto do padrasto não saia de sua mente. Precisava de amigos.

_ Onde estão vocês? – Ela clamou para os céus, como se ali houvesse alguém para ouví-la.

Apenas a sombra lhe respondeu com uma voz docemente profanada:

_ Estão acordados. Vivendo a vida. Um toque meninaaaaa. Me deixe tocá-la!

Samanta tentou libertar-se dos lençóis, mas eles começaram a circundá-la como cobras, apertando seus ossos e impedindo seus movimentos. Tentou mais uma vez uma lembrança. Fugiam-lhe idéias e sua respiração tornava-se mais difícil.

_ Somos eu e você agora, menina. – A sombra olhava para suas próprias mãos e as unhas cresciam disformes enquanto ela o fazia. Como se o tempo tivesse avançado dias em poucos instantes e ambos esperassem calmos até que cada milimetro de unha crescesse nos dedos.

Samanta debateu-se uma última vez e as cobras de lençóis se retesaram, paralisando-a.

_ Será hoje? Tocarei sua pele macia?

Querendo amigos, pensou neles. Mas todos que tinha lhe pareciam desajustados. Queria a lembrança de um que ajudasse, mas Pedro lhe traria sofrimento. Marina, lembranças de críticas e brigas idiotas. Fernando e Suzana, drogados que passavam o dia ao redor de um baseado com risos sem sentido, fogo e fumaça.

Ela caiu por dentro dos panos que agora eram uma fumaça branca, mas indecente. Um aroma penetrante que entorpeceria seus pensamentos com rapidez.

Estava livre, mas a mente anuviada pela droga. A Sombra do Tio Benito a seguia, flutuando como se o ar fosse água e ele, um polvo feito de braços e boca e línguas. Samanta sacudia a cabeça tentando livrar-se do efeito da fumaça entorpecente.

A queda foi pouca dessa vez, logo estava correndo pelo chão de uma fábrica, tentando enxergar com os olhos embargados. Lembrança que não era dela. Sorriu. Estava entrando em outra consciência, o que significava que estava chegando no lugar para onde queria ir. Era a fábrica onde sua mãe trabalhara logo que seu pai…

_Não, Samanta. Pense melhor. – Ela tentava controlar sua mente, mas a droga era uma barreira a mais. Mesmo que sentisse o efeito indo embora, seus pensamentos estavam lentos e logo trouxeram o caixão de seu pai e o novo casamento de sua mãe. A sombra estava próxima. Ela a trouxe para cá com esse tipo de lembrança. Ela a invocou mais uma vez.

Uma curva mais fechada a jogou de cara com a criatura, ali, parada de boca arregaçada, esperando que Samanta caísse sobre ela. Por poucos milímetros ela conseguiu frear seu corpo, segurando-se na parede da esquina, onde seus dedos perfuraram a alvenaria como âncoras na areia do mar. O sobressalto foi suficiente para perder a concentração. E sem ela esqueceu-se de onde estava e como estava. O Mar foi tudo que pensou!

Tudo mudou. Água invadiu as janelas e escorreu pelas paredes e para o chão, enchendo a fábrica de peixes e coisas marinhas, inundando todo o lugar. Subiu até os joelhos de Samanta e continuou. A figura das sombras agora tinha os óculos de Benito e olhos cresciam nos lugares onde antes já deviam estar. Examinando-a. Samanta tentou pensar em algo para livrar-se, mas só conseguia pensar na praia e os motivos de estar ali.  Percebeu que suas roupas haviam sumido. Estava nua, vulnerável e assustada. Estava perdendo o controle das memórias e o pesadelo começou a vencê-la. A sombra de Benito cresceu como se alimentada pelo medo e o sorriso, antes profano, mas bondoso, abriu-se numa gargalhada rasgada e perversa.

_ Menina…. Ah! Menina!

A lembrança era da casa de praia, poucos meses antes, quanto Samanta finalmente percebeu o que acontecia em seus sonhos. Ela se acovardou e deu passos para trás com a sombra crescendo sobre si. A água atrapalhou seus passos e ela caiu, sentada, desajeitada. Abraçou as pernas, chorando. Tentou ainda uma lembrança que a libertasse, mas nada parecia bom o suficiente nem alegre o suficiente. O Mundo pareceu triste, feio, escuro.

A sombra avançou chapinhando na água, que agora já enchia metade da fábrica, e Samanta boiava em meio a ela, desolada. Sentiu-se sozinha como uma criança de novo. Era uma criança. Isso lhe veio como um tapa. E, na verdade, fez seu rosto estalar e contorcer-se como se uma mão a tivesse atingido. Cresceu. Cuidava de si. Sentia-se moça, mas era uma criança. Dependia de todos. Da mãe. Queria seu pai de volta. Queria poder sorrir com eles. Quando Tio Benito não tinha ainda entrado na sua vida. Antes de sua mãe se casar de novo.

O chão começou a tornar-se vermelho como sangue e a Sombra parou. Dessa vez assustada. Mesmo seu sorriso se fechou em uma careta e seus olhos recentes pareciam perceber o que acontecia.

As paredes da fábrica se contorciam, tornando-se vermelhas, rosadas e vivas. Como carne, como as entranhas de um animal. A água ficou pegajosa e calma. Parou de transbordar e acolheu Samanta. A moça esticou os dedos para baixo, imergindo e tocando as paredes de um útero, sentindo-se protegida. Ela estava na consciência de sua mãe. Nada lhe aconteceria ali. E acordou.

O vento do ar condicionado balançava seus cabelos e, mesmo no frio, sua testa suava. Amanheceria em breve. Ela teria de levantar-se, tomar banho e vestir-se. Teria de ir à mesa para o café onde sua Mãe e Tio Benito, seu padrasto, lhe dariam bom dia e perguntariam como estava. Teria de dizer que tudo bem. Teria que dar bom dia ao Tio Benito. Mesmo que Samanta lembrasse da sombra terrível que lhe acometeu na viagem à praia quando Samanta já não era mais criança, quando já parecia uma moça. Bonita e macia.

Ela estremeceu e respirou de olhos fechados. Não poderia contar a ninguém. Quem acreditaria? Na verdade não havia o que contar. Nada aconteceu. O Marido de sua mãe não lhe fez nada. Sequer lhe tocara.  A não ser que pudesse acusá-lo de ser a sombra que lhe vinha assolar os sonhos. De atormentá-la desde que sentiu-se nua ao ser vista por ele de trajes de banho.

Seria imaginação dela mesmo se sentindo tão certa? Foi ela quem despertou a sombra de Benito ou ela sempre esteve lá?

A menina sentou-se, abraçando os joelhos, e olhou para o espelho.

O que poderia fazer? Ir embora? Deixaria todos loucos por algo que ela não tinha certeza. Se ao menos houvesse alguém nesse mundo dela. Alguém como ela, cujos sonhos… Ela sacudiu a cabeça e penteou os cabelos com os dedos. Quanto tempo precisaria escapar da sombra para que ela fosse embora de vez?

Samanta foi ao banheiro escovar os dentes. Teria de olhar sua Mãe nos olhos e sorrir um “tudo bem”. Benito lhe sorriria um “boa dia” afetuoso com sua boca de dentes perfeitos e olhar bondoso. Lhe oferecia a carona matinal, que ela passou a recusar com a desculpa de gostar da caminhada. A sombra não acordava de dia. Sentiu-se mal por questionar o dentista, mesmo que veladamente. Ele nunca lhe tocara. Ele nunca a olhara com malícia. Ou será que Samanta apenas não percebia? Será que, quando Samanta estava de costas, ele a vigiava desejoso? Será que sonhava secretamente em tocá-la e lhe faltava a oportunidade?

A moça tinha muitas dúvidas e poucas certezas, entre elas sabia que enquanto escapasse da sombra naquele mundo terrível ela estaria bem… Mas e se a sombra lhe tocasse?

Talvez devesse matar a sombra…

…ou deveria matar Tio Benito?

 

 

 

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